Voltar ao blog Saúde mental, Bem-estar

Como Parar de se Culpar por Erros do Passado: 10 Estratégias Comprovadas Para se Perdoar e Seguir em Frente

Taimo
novembro 06, 2026
No comments
Como Parar de se Culpar por Erros do Passado: 10 Estratégias Comprovadas Para se Perdoar e Seguir em Frente

Você Sabia?

Muita gente teme que ser gentil consigo mesma depois de um erro seja uma forma de “se safar”. A investigação sugere o contrário. Em experiências conduzidas por Juliana Breines e Serena Chen (2012), pessoas induzidas a encarar um fracasso com autocompaixão dedicaram mais tempo a preparar-se para a tentativa seguinte do que as que se limitaram a proteger a autoestima ou a não pensar no assunto. Ser duro consigo não é o que nos faz melhorar.

Fonte: Breines, J. G. & Chen, S. (2012), Personality and Social Psychology Bulletin.

Há erros que passam e há erros que ficam. Uma decisão errada, uma palavra dita no pior momento, uma oportunidade perdida, alguém que magoámos, algo que não fizemos a tempo. Passam anos e, de vez em quando, a memória volta: o coração aperta, a cabeça repete a cena, e a mesma frase aparece: “Como é que eu pude ter feito aquilo?”

Sentir culpa depois de um erro é humano e, em certa medida, útil. A culpa mostra que os nossos valores importam. O problema começa quando ela deixa de nos orientar e passa a nos castigar: quando se repete sem parar, rouba o sono, a energia e a vontade de viver o presente.

Este guia explica a diferença entre culpa saudável e autopunição, e apresenta 10 estratégias com apoio da psicologia para saber como parar de se culpar e seguir em frente, sem negar o que aconteceu nem fingir que não importa. Cada estratégia tem um exercício concreto que pode experimentar hoje.

Este artigo tem carácter informativo e educacional e não substitui avaliação profissional. Se a culpa é muito intensa, persistente ou vem acompanhada de desespero, veja a secção “Quando a culpa pede ajuda profissional” mais abaixo.

Culpa, Vergonha e Arrependimento: Perceber o Que Está a Sentir

Antes das estratégias, convém distinguir três experiências que costumam misturar-se.

Arrependimento é a sensação de que gostaríamos de ter agido de outra forma. É dirigido à situação: “Gostava de ter escolhido outro caminho.”

Culpa é a emoção que surge quando sentimos que agimos contra os nossos valores ou que magoámos alguém. Está ligada a um comportamento: “Fiz uma coisa errada.”

Vergonha é a emoção que ataca a identidade: “Sou uma pessoa má.” Em vez de avaliar o que fizemos, avalia quem somos.

Esta distinção tem importância prática. Num estudo de referência, Tangney, Wagner e Gramzow (1992) observaram que a tendência para a vergonha estava associada a mais sintomas psicológicos (como depressão e ansiedade), enquanto a culpa focada no comportamento estava menos associada a esses problemas e podia motivar a reparação. Em termos simples: a culpa diz “fiz mal” e pede reparação; a vergonha diz “sou mau” e pede esconderijo.

Informação Complementar:

Perdoar-se não significa dizer que o erro não aconteceu, que não teve consequências ou que não foi importante. Significa reconhecer o que aconteceu, assumir o que é seu, reparar o que se pode e deixar de se punir. Fisher e Exline (2006) distinguem precisamente o autoperdão genuíno (que implica remorso e responsabilidade) da simples desculpabilização (que nega ou minimiza).

Por Que a Mente Insiste em Voltar ao Passado

Há dois mecanismos por trás do “filme que não pára”. O primeiro é a ruminação: pensar repetidamente nas causas e consequências do mesmo problema, sem chegar a uma solução. Nolen-Hoeksema e colegas (2008) mostraram que a ruminação prolonga e agrava o sofrimento emocional. O segundo é o viés retrospetivo: depois de sabermos como as coisas acabaram, o resultado parece ter sido óbvio e previsível. Fischhoff (1975) demonstrou que as pessoas tendem a sobrestimar o que poderiam ter previsto. Por isso, julgamos o “eu do passado” com informação que ele não tinha.

As estratégias que se seguem atuam sobre estes dois mecanismos.

As 10 Estratégias Para Parar de se Culpar Por Erros do Passado

Estratégia 1: Dê Nome ao Que Sente e Separe Culpa de Vergonha

Por que funciona: nomear a emoção com precisão reduz a sua intensidade e abre caminho a respostas mais adequadas. Culpa pede reparação; vergonha pede compaixão. Misturá-las leva a punir quem somos, em vez de corrigir o que fizemos.

Como fazer: escreva a frase que mais repete na sua cabeça e classifique-a:

  • “Fiz uma coisa que não devia” (culpa, sobre o comportamento).
  • “Sou uma pessoa horrível” (vergonha, sobre a identidade).

Reescreva as frases de vergonha para a versão sobre o comportamento. “Sou um egoísta” passa a “Tomei uma decisão que magoou alguém e não é o tipo de pessoa que quero ser.”

Dica Prática:

Repare nas palavras absolutas: “sempre”, “nunca”, “sou um falhado”. São quase sempre sinais de vergonha, não de uma avaliação justa.

Estratégia 2: Reconstrua os Factos Com a Informação Que Tinha Na Altura

Por que funciona: o viés retrospetivo faz-nos julgar decisões passadas com conhecimento que só temos agora. Reconstruir o contexto devolve justiça à avaliação.

Leia Também:  Como Parar de Procrastinar: 8 Estratégias Práticas Para Agir Agora e Produzir Mais

Como fazer: numa folha, responda por escrito a cinco perguntas sobre o episódio:

  1. O que é que eu sabia naquela altura?
  2. O que eu não sabia e só descobri depois?
  3. Em que estado emocional ou físico estava (cansaço, pressão, medo, falta de apoio)?
  4. Que opções via realmente disponíveis?
  5. Se um amigo próximo estivesse nessa mesma situação, com essas informações, como o veria?

Exemplo: “Aceitei aquele negócio porque parecia seguro e confiava no meu sócio. Hoje sei o que aconteceu, mas na altura não havia sinais claros. Decidi com o que tinha.”

Isto não apaga a responsabilidade. Apenas a coloca no tamanho certo.

Estratégia 3: Meça a Sua Responsabilidade Real (O Gráfico das Causas)

Por que funciona: quando nos culpamos, tendemos a atribuir a nós 100% da responsabilidade, ignorando outros fatores. Distribuir a responsabilidade de forma realista é um exercício clássico da terapia cognitivo-comportamental.

Como fazer:

  1. Desenhe um círculo e liste todos os fatores que contribuíram para o que aconteceu (as suas escolhas, as de outras pessoas, circunstâncias, falta de informação, azar).
  2. Divida o círculo em fatias proporcionais a cada fator. Comece pelos outros fatores e deixe a sua parte por último.
  3. Olhe para a sua fatia: é real, mas provavelmente menor do que os 100% que a culpa lhe atribuía.

Atenção:

Este exercício não serve para empurrar a culpa para os outros. Se a sua parte é grande, o círculo vai mostrá-lo, e isso também é útil, porque indica onde está a responsabilidade que pode assumir e reparar (Estratégias 6 e 7).

Estratégia 4: Fale Consigo Como Falaria Com um Amigo (Auto-distanciamento)

Por que funciona: estamos quase sempre mais disponíveis para consolar os outros do que a nós próprios. Ethan Kross e colegas (2014) mostraram que refletir sobre uma situação difícil usando o próprio nome ou a terceira pessoa (“Maria, o que se passa?”) cria distância emocional e reduz a reatividade, em comparação com o “eu” do diálogo interno habitual.

Como fazer:

  • Imagine que o seu melhor amigo lhe conta exatamente o seu erro. O que lhe diria? Escreva as palavras.
  • Agora dirija essas mesmas palavras a si, usando o seu nome: “[Nome], isso foi difícil. Estavas a fazer o melhor que sabias. O que precisas agora?”

Dica Prática:

Faça-o em voz alta ou por escrito. Ouvir ou ver as palavras tem mais efeito do que apenas pensá-las.

Estratégia 5: Pratique a Autocompaixão em Três Passos

Por que funciona: Kristin Neff (2003) descreve a autocompaixão como três componentes: bondade consigo em vez de autocrítica, humanidade comum (perceber que errar faz parte da experiência de todos) e atenção plena (reconhecer a dor sem a exagerar nem a negar). Uma meta-análise de MacBeth e Gumley (2012) encontrou uma associação forte entre maior autocompaixão e menos depressão, ansiedade e stress.

Como fazer (pausa de 3 minutos):

  1. Reconheça: “Este é um momento de sofrimento. Estou a sentir culpa.”
  2. Humanidade comum: “Errar faz parte de ser humano. Muita gente já passou por algo assim.”
  3. Bondade: coloque uma mão no peito e diga: “Que eu seja gentil comigo neste momento. Que eu possa aprender com isto.”

Para quem quer uma prática diária de atenção plena, veja o nosso guia de como meditar em casa.

Estratégia 6: Assuma a Responsabilidade Sem Se Punir

Por que funciona: o autoperdão saudável não passa por negar o erro. Fisher e Exline (2006) observaram que o autoperdão mais genuíno vem junto com remorso, esforço de reparação e aceitação da responsabilidade. Já o autoperdão rápido e sem responsabilidade é apenas autodesculpabilização. Entre os dois extremos (autopunição e desculpa), há um caminho do meio.

Como fazer: complete por escrito três frases:

  • “O que eu fiz foi…” (descreva factualmente, sem adjetivos duros).
  • “O efeito que isso teve em…” (nomeie as consequências com honestidade).
  • “A minha parte nisto foi…, e aceito essa parte.”

Depois acrescente: “E eu continuo a ser uma pessoa digna de respeito e de uma segunda oportunidade.”

Estratégia 7: Repare o Que For Possível

Por que funciona: a culpa tem uma função: empurrar-nos para a reparação. Quando agimos, a emoção cumpre o seu papel e começa a diminuir. Wohl, Pychyl e Bennett (2010) observaram que o autoperdão, quando associado a assumir a responsabilidade e a mudar o comportamento, ajuda a agir melhor no futuro em vez de repetir o padrão.

Como fazer:

  • Se a pessoa ainda está presente: peça desculpa de forma simples e sem exigir perdão. Uma boa estrutura é: reconhecer o que fez, nomear o impacto, assumir responsabilidade, dizer o que vai fazer diferente. Evite o “desculpa, mas…”.
  • Se há algo concreto a corrigir: devolver, pagar, corrigir, retomar contacto, fazer o que ficou por fazer.
  • Se a reparação direta não for possível (a pessoa faleceu, perdeu-se o contacto, não quer ouvir): faça uma reparação simbólica, como apoiar uma causa relacionada, ajudar alguém em situação semelhante ou escrever uma carta que não será enviada.

Atenção:

Pedir perdão é um gesto, não uma garantia. A outra pessoa tem o direito de não responder ou de precisar de mais tempo. O seu autoperdão não deve depender da resposta dela.

Estratégia 8: Transforme o Erro Numa Lição e Num Plano Concreto

Por que funciona: a diferença entre ruminar e refletir é a utilidade. Watkins (2008) distingue o pensamento repetitivo construtivo (concreto, orientado a soluções) do pouco construtivo (abstrato, centrado em “porquê eu”). Quando extraímos uma lição e a convertemos em ação, a mente tem menos razão para repetir o assunto.

Leia Também:  Mounjaro: O Que É, Para Que Serve e Como Funciona Esse Novo Medicamento para Obesidade e Diabetes Tipo 2

Como fazer: responda por escrito:

  1. O que aprendi com isto sobre mim, sobre os meus limites e sobre os meus valores?
  2. Se a mesma situação surgir, o que farei de diferente? (Seja específico: “Vou pedir uma segunda opinião antes de decidir.”)
  3. Qual é o primeiro passo desta semana?

Exemplo: “Aprendi que digo ‘sim’ por medo de desiludir. Da próxima vez, vou pedir 24 horas antes de responder a pedidos importantes.”

Pode usar o formato “se-então” para fixar o plano. Explicamos a técnica no guia sobre como parar de procrastinar.

Estratégia 9: Interrompa a Ruminação Quando Ela Começar

Por que funciona: mesmo com as estratégias anteriores, os pensamentos vão voltar. Como a ruminação agrava o sofrimento (Nolen-Hoeksema et al., 2008), o objetivo não é nunca pensar no assunto, mas não ficar preso em ciclo.

Como fazer:

  • Reconheça o ciclo: “Estou a ruminar. Já pensei nisto 20 vezes e não cheguei a nada de novo.”
  • Dê-lhe um horário: reserve 15 minutos por dia (nunca à noite) para pensar ou escrever sobre o assunto. Se a ruminação surgir fora desse horário, diga: “Agora não. Fica para as 18h.”
  • Mude de canal: movimento físico, uma caminhada, uma tarefa manual, uma conversa. Ruminar é difícil quando as mãos e o corpo estão ocupados.
  • Volte ao presente: nomeie cinco coisas que vê, quatro que ouve, três que sente com o corpo.
  • Troque o “porquê” pelo “o quê”: em vez de “Porque é que eu fiz isto?” (sem resposta útil), pergunte “O que posso fazer agora?”.

Dica soficia:

Dormir mal alimenta a ruminação. Se os pensamentos surgem sobretudo à noite, deixe um caderno ao lado da cama, escreva o que lhe vem à cabeça e diga: “Já está registado; posso retomar amanhã.”

Estratégia 10: Escreva uma Carta de Perdão e Fale Com Alguém de Confiança

Por que funciona: escrever sobre experiências emocionalmente difíceis, como proposto por James Pennebaker, tem mostrado benefícios modestos mas consistentes no bem-estar emocional (Frattaroli, 2006). Partilhar com alguém de confiança acrescenta algo que a escrita sozinha não dá: perceber que não estamos isolados e ouvir outra perspetiva.

Como fazer a carta (20 minutos, 3 a 4 dias seguidos):

  1. Escreva a si mesmo(a), como se fosse alguém que o(a) compreende e quer o seu bem.
  2. Descreva o que aconteceu, o que sentiu e o que lamenta.
  3. Reconheça o que aprendeu e o que fez para reparar.
  4. Termine com uma frase de perdão e de compromisso para o futuro, como: “Perdoo-me pelo que não sabia, pelo que não consegui e por ter sido humano(a). Escolho seguir em frente com o que aprendi.”

Guarde a carta, releia-a quando a culpa voltar ou, se sentir que já cumpriu a sua função, faça um pequeno ritual de encerramento (rasgá-la, queimá-la com segurança ou guardá-la numa gaveta).

Falar com alguém: escolha uma pessoa que escute sem julgar, como um amigo próximo, um familiar, um líder espiritual de confiança ou um profissional de saúde mental. Para muitas pessoas, a fé, a oração e a comunidade são parte importante do processo de perdão, e podem coexistir perfeitamente com as estratégias deste guia.

Resumo das 10 Estratégias

#EstratégiaAjuda sobretudo quando…Primeiro passo (5 minutos)
1Nomear culpa e vergonhaSe sente “uma pessoa má”Reescrever uma frase de vergonha como frase sobre o comportamento
2Reconstruir os factosJulga o passado com o que sabe hojeResponder “o que eu sabia na altura?”
3Gráfico das causasAtribui a si 100% da responsabilidadeListar 5 fatores que contribuíram
4Falar como a um amigoA autocrítica é muito duraEscrever o que diria a um amigo
5AutocompaixãoA dor é intensaPausa de 3 minutos com mão no peito
6Assumir sem punirOscila entre negar e se castigarCompletar as 3 frases de responsabilidade
7RepararHá algo que pode ser emendadoEscolher uma ação de reparação
8Lição e planoSente que “não aprendeu nada”Escrever o que fará diferente
9Interromper a ruminaçãoPensamentos repetem-se, sobretudo à noiteMarcar um “horário da preocupação”
10Carta e apoioSente-se sozinho(a) com o assuntoContar a uma pessoa de confiança

Plano de 14 Dias Para Começar a Se Perdoar

Não é preciso aplicar tudo de uma vez. Escolha um episódio que ainda pesa e siga este plano.

DiasO que fazer
1 a 2Escreva o episódio com factos. Separe culpa de vergonha (Estratégia 1)
3 a 4Reconstrua o contexto (Estratégia 2) e faça o gráfico das causas (Estratégia 3)
5 a 6Escreva a si como a um amigo (Estratégia 4). Faça a pausa de autocompaixão uma vez por dia (Estratégia 5)
7 a 8Escreva as três frases de responsabilidade (Estratégia 6). Decida uma ação de reparação (Estratégia 7)
9 a 10Execute a reparação possível. Escreva a lição e o plano (Estratégia 8)
11 a 12Defina o horário da preocupação e pratique mudar de canal (Estratégia 9)
13 a 14Escreva a carta de perdão e partilhe com alguém de confiança (Estratégia 10)

A culpa pode voltar depois do plano, e isso é normal. Não significa que falhou: cada vez que voltar, repita a estratégia que mais ajudou.

Erros Comuns Ao Tentar se Perdoar

  1. Esperar sentir-se “perdoado” para agir. O sentimento costuma seguir a ação, não precedê-la.
  2. Confundir perdão com esquecimento. Perdoar-se é aceitar o passado, não apagá-lo.
  3. Pedir desculpa para se sentir aliviado(a). Um pedido de desculpa que exige perdão imediato coloca peso na outra pessoa.
  4. Tentar não pensar no assunto. Suprimir pensamentos costuma aumentá-los. É preferível dar-lhes um espaço e um limite.
  5. Comparar-se com os outros. “Os outros não cometeram erros assim” raramente é verdade; só vemos os bastidores dos outros nos seus melhores momentos.
  6. Fazer penitência sem fim. Se a punição não repara nada, não é reparação, é sofrimento extra.
  7. Fazer tudo sozinho. Falar com alguém ajuda a ver o que, sozinho, não se vê.
  8. Exigir-se perfeição. Um perdão “completo” e definitivo é uma expectativa irrealista. O alívio é gradual.
Leia Também:  O que é saúde mental: 5 Melhores formas

Quando a Culpa Pede Ajuda Profissional

Para muitas pessoas, as estratégias acima ajudam de forma significativa. Mas há situações em que a culpa precisa de apoio especializado. Considere falar com um médico, psicólogo ou psiquiatra se:

  • a culpa ou a vergonha são intensas e persistem há semanas ou meses, mesmo com esforço;
  • sente tristeza profunda, perda de interesse, alterações do sono ou do apetite ou sensação de inutilidade, que podem ser sinais de depressão;
  • a culpa vem acompanhada de ansiedade intensa, pensamentos intrusivos ou rituais (por exemplo, rever e confirmar compulsivamente se fez algo errado), o que pode estar relacionado com perturbação obsessivo-compulsiva (veja o nosso artigo de TOC);
  • a culpa está ligada a uma perda, como a morte de alguém, e sente que “devia ter feito algo”, o que é comum no luto;
  • a culpa está ligada a violência, abuso ou outro trauma. Se foi vítima, a responsabilidade não é sua, e um profissional pode ajudar a trabalhar esses sentimentos com segurança;
  • a culpa afeta seriamente o seu trabalho, as suas relações ou a sua saúde;
  • tem pensamentos de se magoar, de desaparecer ou de que seria melhor não estar vivo. Neste caso, não espere: fale hoje mesmo com alguém de confiança e procure ajuda urgente num serviço de saúde ou de emergência da sua zona. Estes pensamentos são sinais de sofrimento que merece atenção, e há ajuda disponível.

Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental, a terapia de aceitação e compromisso e a terapia focada na compaixão têm sido estudadas no trabalho com culpa, vergonha e autocrítica. Procurar ajuda não significa fraqueza, mas cuidado consigo.

Para uma visão geral sobre saúde mental, consulte também a nossa página sobre transtornos mentais e os sinais de ansiedade.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Sentir culpa é normal?

Sim. A culpa é uma emoção humana normal e, em doses moderadas, útil: indica que os nossos valores importam e motiva-nos a reparar o que fizemos. O problema surge quando a culpa é desproporcional ao que aconteceu, dura muito tempo ou se transforma em vergonha e autopunição. Nesse ponto, deixa de ajudar e passa a prejudicar o bem-estar.

Perdoar-me é o mesmo que desculpar o que fiz?

Não. Desculpar é negar ou minimizar a responsabilidade (“não foi nada”, “não tive culpa nenhuma”). Perdoar-se de forma saudável implica reconhecer o erro, sentir remorso proporcional, assumir a responsabilidade e reparar o possível, e, depois, deixar de se punir. Fisher e Exline (2006) mostram que o autoperdão genuíno inclui esta responsabilidade, e não a dispensa.

Como sei se já me perdoei?

Sinais comuns: consegue pensar no episódio sem que o corpo reaja com tanta intensidade; consegue falar dele com honestidade, sem se atacar; a lição ficou mais presente do que a dor; e já não precisa de se castigar para “merecer” estar bem. Pode ainda sentir tristeza ou arrependimento, e isso é normal. O perdão não é um interruptor, é um processo gradual.

E se o meu erro magoou alguém e não consigo repará-lo?

Quando a reparação direta não é possível (a pessoa faleceu, não quer contacto, ou perdeu-se a relação), a psicologia sugere formas simbólicas: escrever uma carta que não será enviada, ajudar outras pessoas em situação semelhante, comprometer-se a agir de forma diferente no futuro. Aceitar que há coisas que não se podem emendar também é parte do processo, e falar com um profissional pode ajudar muito.

Quanto tempo leva a deixar de me culpar?

Depende da gravidade do episódio, do tempo que passou e de ter ou não apoio. Algumas pessoas sentem alívio em poucas semanas ao praticar estas estratégias; outras precisam de meses, sobretudo em casos de luto ou trauma. Não há prazo certo. O que importa é a direção: com o tempo, a culpa deve ficar menos intensa e menos frequente.

E se a outra pessoa não me perdoa?

O perdão dos outros não está sob o seu controlo, e o seu autoperdão não deve depender dele. Pode pedir desculpa com sinceridade, reparar o que lhe cabe e respeitar o tempo e a decisão da outra pessoa. Muitas vezes, a relação muda com o tempo; por vezes, não. Continuar a agir de acordo com os seus valores é o que está ao seu alcance.

Conclusão

Na busca pelo autoperdão, é fundamental desenvolver uma mentalidade que promova a aceitação das imperfeições humanas. A reflexão sobre os erros cometidos deve ser encarada como uma oportunidade de crescimento, permitindo que se tire lições valiosas para o futuro. Além disso, cultivar a empatia consigo mesmo é um passo essencial, pois isso facilita a superação de sentimentos de culpa e autopunição. Criar um ambiente interno seguro e acolhedor pode ajudar a suavizar a autocrítica, promovendo uma visão mais generosa de si mesmo. Por fim, é importante lembrar que cada indivíduo tem seu próprio ritmo de cura e que respeitar esse processo é fundamental para alcançar um estado de paz interior.

Quatro passos para dar ainda hoje:

  1. Escolha um episódio que ainda pesa e escreva três frases factuais sobre o que aconteceu.
  2. Reescreva a sua frase mais dura (a de vergonha) como uma frase sobre o comportamento, não sobre quem você é.
  3. Faça a pausa de autocompaixão de 3 minutos (reconhecer, humanidade comum, bondade).
  4. Escolha uma ação pequena de reparação ou de aprendizagem para esta semana, e conte a alguém de confiança.

O seu passado explica parte de quem é, mas não decide quem pode ser daqui para a frente.

Fontes e Referências

  1. Breines, J. G., & Chen, S. (2012). Self-compassion increases self-improvement motivation. Personality and Social Psychology Bulletin, 38(9), 1133-1143. https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0146167212445599
  2. Tangney, J. P., Wagner, P., & Gramzow, R. (1992). Proneness to shame, proneness to guilt, and psychopathology. Journal of Abnormal Psychology, 101(3), 469-478. https://psycnet.apa.org/record/1993-13639-001
  3. Fisher, M. L., & Exline, J. J. (2006). Self-forgiveness versus excusing: The roles of remorse, effort, and acceptance of responsibility. Self and Identity, 5(2), 127-146. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/15298860600586123
  4. Hall, J. H., & Fincham, F. D. (2005). Self-forgiveness: The stepchild of forgiveness research. Journal of Social and Clinical Psychology, 24(5), 621-637. https://guilfordjournals.com/doi/10.1521/jscp.2005.24.5.621
  5. Wohl, M. J. A., Pychyl, T. A., & Bennett, S. H. (2010). I forgive myself, now I can study: How self-forgiveness for procrastinating can reduce future procrastination. Personality and Individual Differences, 48(7), 803-808. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0191886910000474
  6. Nolen-Hoeksema, S., Wisco, B. E., & Lyubomirsky, S. (2008). Rethinking rumination. Perspectives on Psychological Science, 3(5), 400-424. https://journals.sagepub.com/doi/10.1111/j.1745-6924.2008.00088.x
  7. Watkins, E. R. (2008). Constructive and unconstructive repetitive thought. Psychological Bulletin, 134(2), 163-206. PUBMED – https://psycnet.apa.org/fulltext/2008-01984-001.html
  8. Fischhoff, B. (1975). Hindsight is not equal to foresight: The effect of outcome knowledge on judgment under uncertainty. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 1(3), 288-299. https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2F0096-1523.1.3.288
  9. Kross, E., et al. (2014). Self-talk as a regulatory mechanism: How you do it matters. Journal of Personality and Social Psychology, 106(2), 304-324. https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2Fa0035173
  10. Neff, K. D. (2003). Self-compassion: An alternative conceptualization of a healthy attitude toward oneself. Self and Identity, 2(2), 85-101. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/15298860309032
  11. MacBeth, A., & Gumley, A. (2012). Exploring compassion: A meta-analysis of the association between self-compassion and psychopathology. Clinical Psychology Review, 32(6), 545-552. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S027273581200092X
  12. Frattaroli, J. (2006). Experimental disclosure and its moderators: A meta-analysis. Psychological Bulletin, 132(6), 823-865. https://psycnet.apa.org/doiLanding?doi=10.1037%2F0033-2909.132.6.823
Written By

Taimo

Read full bio

Join the Inner Circle

Get exclusive DIY tips, free printables, and weekly inspiration delivered straight to your inbox. No spam, just love.

Your email address Subscribe
Unsubscribe at any time. * Replace this mock form with your preferred form plugin

Deixe um comentário

Secret Link